Sim, tem um motor Renault, mas não é por isso que a exclamação se lhe aplica. É o Mercedes compacto mais dinâmico e atrativo alguma vez feito, que em nada faz lembrar esse bloco de peças que é o primeiro A.

O Mercedes Classe A suscita duas reações díspares a todos os que com ele se cruzam: o silêncio e a estupefação. A primeira resulta da constatação e necessidade de confirmação de estarem perante um Classe A, de tão diferentes e impactantes as linhas desta nova geração em relação à original. A proximidade estética da extremidade dianteira ao B, ainda que confinada aos faróis e grelha, ajudam a identificar, de relance, o parentesco. Mas logo a partir do símbolo evidencia-se o facto de estarmos perante algo especial. Daí até lá atrás é um crescendo de boas imagens para os olhos, culminando numa impressionante secção traseira, cheia de músculo e dinâmica: está tudo na fotografia que pode ver aqui à direita. Sem mais considerações estéticas, ou vaticínios sobre a filosofia dos traços, o novo Classe A é um carro que impressiona: apelativo, diferente, imponente e equilibrado. A aparência do Classe A atira os concorrentes para uma área de banalidade e indiferença com uma facilidade imensa. Talvez a única exceção seja o novo Volvo V40, que não é arrasador, mas segue uma linguagem mais sóbria.

Quanto à estupefação, o sentimento resulta de saberem que este Classe A, tão impressionante por fora, tem um motor Renault. Claro que os leitores do Autohoje, como nós, já tiveram tempo para “digerir” a notícia confirmada em sussurro, há poucos meses, quando já praticamente se sabia tudo sobre o Classe A. Mas os que não acompanham o mundo automóvel com o detalhe que ele merece, reagem, incrédulos, ao facto. A verdade é que este motor, que foi uma referência anos a fio nos Diesel de baixa cilindrada e talvez a melhor peça tecnológica da Renault nas duas últimas décadas, orgulharia qualquer construtor de motores. Mas ao ser incluído no mais marcante e importante modelo de uma marca como a Mercedes, apontada por muitos como a criadora do primeiro automóvel de passageiros Diesel, reconhecemos que a união pareça estranha. A Mercedes, sem entrar em pormenores, garante ter alterado e desenvolvido grande parte dos componentes móveis e dos sistemas de admissão e escape deste quatro cilindros.

RENTE AO CHÃO
Neste Mercedes desce-se para o banco. A regulação em altura do banco é muito ampla e nenhum condutor vai sentir dificuldades em encontrar uma boa posição. O ambiente, ainda que semelhante nos elementos ao do Classe B, ganha toda uma envolvente desportiva que nos faz sentir mais encaixados e enquadrados com todos os comandos. Sentimos estar ali para conduzir, não para sermos levados atrás do volante. O teto mais próximo forrado a preto é o elemento fundamental, mas todos os detalhes que fazem parte do pack AMG - o forro do tablier em tecido a imitar carbono, as costuras vermelhas e as aplicações em alumínio - reforçam o ambiente.

Os bancos tipo bacquet estarão presentes em todos os Classe A vendidos em Portugal, uma vez que só a versão base sem qualquer pack de equipamento (só disponível por encomenda específica) os não terá. Têm tecido tipo pele alcantara no centro e lisa nos flancos, mas os elementos mais marcantes são os encostos de cabeça integrados e com iluminação por LED (nos quatro lugares) atrás do pescoço. Encaixam bem o corpo e mostraram ser confortáveis mesmo com o tempo quente. À frente, um volante quase perfeito. Não fosse estar uns milímetros recuado na metade esquerda e ficaria centradíssimo com a posição de condução. Muito melhor do que o que encontramos nos Classe C ou E Coupé. O A convida a conduzir, por isso, façamos-lhe a vontade.

Rodada a chave, reconhece-se o trabalhar do motor Diesel, mas a custo porque a insonorização está bem feita. Sendo o carro mais pesado entre os concorrentes e com cerca de 200kg a mais, face a um Mégane, é previsível a maior dificuldade em arrancar com menos de 1500 rpm. Felizmente, nas subidas temos a ajuda do “hold”, que mantém o carro travado até ao arranque. E se o motor se calar por insistirmos em arrancar com poucas rotações, novo pisar na embraiagem reativa o sistema start/stop que funciona bastante bem, não só nos tempos de paragem - desligando o motor perto dos 10km/h quando abrandamos em ponto-morto - como na rapidez da recolocação em funcionamento do motor. A caixa, também da Renault, não é muito rápida e tem um curso de alavanca longo, mas é silenciosa e precisa q.b.. As relações das seis mudanças são específicas do Classe A. Para vencer a questão do peso/inércia as duas primeiras são mais curtas do que na Renault e as restantes mais longas.

O conjunto motor/caixa está “afinado” para potenciar e facilitar a utilização maioritariamente entre as 1500rpm e 3500 rpm. Com alguns quilómetros, e as referidas ajudas eletrónicas, habituamo-nos rapidamente a arrancar e a circular nos regimes mais favoráveis. Até à quarta velocidade o 1.5 quer sempre parecer mais potente, e a partir da quinta deixa cair o regime 1000 rotações para alcançar a melhor economia possível. Dá, portanto, perfeitamente conta do andamento que se espera de um carro compacto em circuito citadino, mesmo com bastantes incursões em autoestrada. Mas, curiosamente, neste conjunto desilude mais a dificuldade que encontrámos em fazer consumos irrisórios, nomeadamente os anunciados 3,3 (que nunca conseguimos) a 4,5 litros aos 100 km/h, do que uma eventual falta de “andamento”.

O que não quer dizer que se sinta facilmente que este A merece - e tê-los-á - motores mais de acordo com a dinâmica que consegue oferecer. Sempre muito seguro e estável em qualquer situação, é um carro que gosta de curvar com a frente leve, ou seja já, em aceleração. Também aqui sobressai a “afinação” do A para os tempos modernos: não impressiona em ganchos nem em curvas fechadas, mas é muito eficaz e até divertido nas curvas longas e rápidas de forte apoio, tipo entradas e saídas de IC, AE e CR. O controlo de estabilidade ESP nunca desliga, embora fique mais permissivo no falso modo “off”, permitindo até, com um ligeiro aliviar do acelerador, um controlado deslizar do eixo traseiro. Com o pack AMG a Mercedes anuncia uma direção mais direta. Tem 2,7 voltas de topo-a-topo. É bastante progressiva mas mais comunicativa e rápida no primeiro quarto de volta. Também inclui jantes de 18 polegadas com pneus 225. Estas medidas ajudam na estética em troca de exagerados pneus que, de certeza, têm algo a dizer sobre os consumos menos bons.

Surpreendente é o desconforto que não se sente. Este A que testámos, com as especificações mencionadas (suspensão mais firme, molas mais curtas, jantes de 18”) tem um amortecimento seco mas nem em estradas demolidoras chega a ser demasiado desconfortável. Na maior parte das vezes é mais o que se ouve no bater de suspensão, por vezes na extensão em buracos fundos, do que aquilo que os passageiros realmente sentem. E por falar em passageiros - não esquecendo o caráter prático deste compacto - confirma-se a necessidade dos adultos darem um jeito à cabeça para evitarem o teto na entrada, mas lá dentro não sentirão falta de espaço para as pernas... Nem para festejar a compra deste novo Mercedes cuja estrela, desta vez, assume-se mesmo como mira certeira: o Classe A é um tiro no porta-aviões da concorrência.

 


Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes