Conseguir “muito carro por pouco dinheiro” pode parecer uma utopia, mas o Renault Talisman 1.6 dCi, o Kia Optima 1.7 CRDI e o Skoda Superb 1.6 TDI vêm demonstrar, de forma clara e inequívoca, que esta não é uma ambição despojada de sentido prático.

Há um ditado português que diz “galinha gorda por pouco dinheiro não há no poleiro”. O que aplicado ao mercado automóvel se traduziria por: “um bom carro, espaçoso e bem equipado, a troco de uma soma pouco avultada é uma utopia”. Será verdade? Dar quase 50 mil euros por um Renault ou praticamente 40 mil euros por um Kia ou um Skoda pode não parecer bom negócio, mas antes de avançar com uma ideia pré-concebida conheça os argumentos de cada um. Vai ver que pode ter uma surpresa... ou várias!

O Renault Talisman representa quase na perfeição a ideia que temos de uma berlina francesa de topo. Grande, espaçoso, confortável e com uma lista de equipamento que deixa pouco lugar à imaginação. O exterior marcante e com inegável presença é complementado por um habitáculo sumptuoso e pejado de gadgets destinados a incrementar o bem-estar e a segurança dos ocupantes. A versão Initiale Paris representa o pináculo da gama e ajuda a diluir os mais de 47mil euros propondo de série elementos pouco usuais nesta faixa de preço, como os bancos integralmente em pele com comandos elétricos, memória, aquecimento e massagem ou a possibilidade de personalizar a cor e a intensidade da iluminação interior. O evoluído 1.6 dCi biturbo de 160 cv, bem como a suspensão pilotada e o sistema de quatro rodas direcionais (4Control) ajudam a cimentar o posicionamento topo de gama deste Talisman.

O Kia Optima partilha a maioria dos argumentos e utiliza as mesmas armas para atingir um fim comum. As generosas dimensões exteriores e as linhas “americanizadas” parecem agradar à maioria e o interior, se bem que menos barroco do que o do Renault, também aposta na oferta de espaço e numa extensa lista de equipamento de série. O motor 1.7 CRDi não é tão “puxado” como o do Renault, ficando-se pelos 141 cv, mas oferece um bom valor de binário e, tal como o Talisman, recorre a uma caixa de dupla embraiagem de sete velocidades.

Nesta companhia, o Superb parece mais sóbrio e despojado, com linhas elegantes, mas pouco pretensiosas e um interior tipicamente germânico, ou não tivesse a mesma génese do VW Passat. O motor 1.6 TDI de 120 cv também parece menos dotado no papel e nem sequer conta com uma caixa de dupla embraiagem para potenciar as suas capacidades nas recuperações ou na facilidade de condução, mas não é tão amorfo como a simples visão da ficha técnica deixaria antever. Aliás, só uma análise menos cuidada pode dar o “caso” do Superb como perdido à partida. Bastam uns quilómetros ao volante do Skoda para ficarmos rendidos, ao ponto de começarmos a questionar a escolha de um Passat quando o Superb é ainda maior e melhor equipado. Embora, obviamente, a imagem de marca não seja a mesma e que isto se reflita no valor de retoma (influenciando ainda decisivamente as rendas dos contratos de renting, por exemplo).

O espaço interior, um argumento comum aos três contendores, é ainda mais generoso no Skoda e habitáculo e apesar de mais “austero” o interior do Skoda é invulgarmente bem construído, com uma montagem superior à dos seus adversários. O Talisman, por exemplo, tem imensas aplicações em pele no tablier e um aspeto high-tech, sublimado pelo imenso ecrã sensível ao toque que ocupa quase toda a consola central, mas a montagem apresenta falhas e a escolha de materiais nem sempre é a mais homogénea. O mesmo se aplica ao Optima, que tem uma montagem cuidada q.b, mas combina materiais de qualidade com outros visivelmente mais fracos.

Mesmo não chegando nunca a comprometer a utilização, o 1.6 TDI pouco ou nada poderia fazer contra adversários bem mais potentes, com destaque, naturalmente, para o 1.6 dCi biturbo de 160 cv que equipa o Renault. Mas este não é o único argumento da berlina francesa na dinâmica. O Talisman tira partido da suspensão pilotada e de um sistema de quatro rodas direcionais (4Control) para garantir o melhor comportamento do trio e uma agilidade incomum numa berlina com estas dimensões e peso. Mesmo em ambiente urbano o Talisman é o mais fácil de levar pelas ruas, já que as linhas direitas e bem definidas, a panóplia de sensores e o reduzido diâmetro de viragem facilitam muito a vida ao condutor. O Optima também é fácil de conduzir, com uma caixa de dupla embraiagem suave e que explora convenientemente as potencialidades do 1.7 CRDi. Onde o Kia perde pontos é na precisão do comportamento, prejudicado por uma direção inerte.

O Superb não tem caixa “automática” (por mais 2000€ pode adquirir a versão DSG) e o 1.6 TDI é mais “molengão” em baixos regimes, mas a caixa manual é suave e precisa e o acerto da suspensão eficaz a combinar o comportamento com os melhores níveis de conforto do trio. Fenómeno a que as jantes de “apenas” 17” não serão alheias. A prova disso é que, mesmo com suspensão pilotada, o Talisman denota algumas dificuldades em digerir os maus pisos quando equipado, como é o caso, com jantes de 19” e pneus 245/40. Os consumos também se ressentem com esta escolha, mas o Talisman faz boa figura quando comparado com o Kia, este sim com um apetite assinalável. Neste campo, o Skoda é novamente imbatível, apresentando consumos invulgarmente baixos e que, em alguns casos, representam uma poupança de quase 2 l/100 km face ao Optima. Ainda assim, este argumento não foi suficiente para destronar o Talisman Nem mesmo depois de constatarmos que o Renault chega a custar mais 10 mil euros do que o Kia e quase outro tanto face ao Skoda. É verdade que o preço do Optima resulta de uma agressiva campanha de lançamento que oferece uns, “garantidos”, 3600€ de desconto, mas que pode chegar aos 6000€ se optar pelo financiamento, mas, ainda assim, será o Renault merecedor de uma tão avultada diferença no preço? A julgar pelo comportamento ao longo da tabela de pontuação e pelos dias que passámos ao volante do Talisman não temos dúvidas de que o Renault é, efetivamente, a proposta mais completa deste trio.

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