Sandro Meda

Sinais de sem-vergonha

É claríssimo para mim que assobiar para o lado à espera que a raiva passe e a gravidade do assunto se dilua numa notícia que desvie atenções - um bombista na Torre Eiffel, ou assim - é, ou devia ser, demasiado indigno até aos olhos do maior crédulo e apoiante do fenomenal estado de graça. A tragédia mais arrepiante de que há memória numa estrada portuguesa - e não deve haver muitas que, a partir de agora, lhe façam concorrência em matéria de horror - deve abater-se, já e impiedosamente, sobre os culpados, que não são a providência, nem o azar, nem o trovão, nem sequer o polícia (se o houve) que desviou o trânsito para a morte, já que provavelmente ninguém lhe disse que não o podia fazer, através das comunicações mal negociadas que não funcionaram. Os culpados de termos serviços de emergência que só funcionam impecavelmente quando não há emergências conseguem-se apontar a dedo: procurem-se os nomes dos que acabaram com os cantoneiros que conservavam, mantinham e conheciam as estradas; que desviaram o propósito, as funções e os fundos da Estradas de Portugal; que compram, gerem e negociaram aviões, helicópteros, quartéis, institutos e autoridades disto e daquilo. Ou, simplesmente, os que acham que a segurança dos automobilistas portugueses começa e acaba na rentabilidade dos radares à volta das cidades, tal como o conceito de ecologia e de bom ambiente se resume à proibição de automóveis na baixa. A hedionda sucessão de mortes em automóveis carbonizados aconteceu na EN 236; não foi num trilho no meio do monte, num caminho de aldeia nem sequer numa estrada municipal. A Nacional 236 é a via mais importante da zona, entalada entre a A13 que absorveu uma série de rotas naturais em troca de portagens; e a famosa N2 onde nos perdemos várias vezes aquando dos reconhecimentos para o Roteiro N2. Nas vias portuguesas, o único caminho assumido com clareza é o das autoestradas pagas. À volta não podem brilhar apenas sinais de pouca vergonha.

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