Durante anos, o nosso colaborador Luís Filipe Borges (“Boinas”) pediu-nos para lhe arranjarmos um Caterham para experimentar. Como surpresa e a pensar no seu sonho, reservamos-lhe para esta edição dedicada a desportivos um modelo de espírito idêntico. Para um apaixonado por cabrios e roadsters e que um dia também confessou que gostava de andar de moto passámos-lhe um veículo que, nós entendemos, tinha ainda mais a cara dele: o 3 Wheeler! Não o desiludimos!

Chego mais entusiasmado do que nunca à Motorpress e tenho, sorridente, toda a redação do Autohoje à minha espera. O motivo não tem ABS, nem direção assistida, nem ar condicionado, nem propriamente suspensão, nem vidros, nem capota, nem sequer rádio, ajudas zero, e rodas... não chegam a quatro.

Há anos formulara o pedido. Desejo. Sonho. Utopia. Seria possível experimentar um Caterham? Ainda não foi desta, mas (e este é o melhor “mas” da História dos “mas”), o Autohoje e a também britânica Morgan proporcionaram algo, quiçá, melhor, um regresso às raízes da condução: o Morgan 3 Wheeler.

É um carro, um avião, uma moto, um triciclo, um caça da 2ª Guerra Mundial? Bem, é – no mínimo – um vício bom e absoluto, e o mais próximo que alguma estive de conduzir uma moto Harley. Tem o motor da dita cuja, orgulho inglês escarrapachado “everywhere”, e um único luxo: estofos de pele com bancos aquecidos. O “briefing” na Motorpress deve ter demorado uma meia horinha, o maior de sempre portanto, provavelmente devido ao apelo magnético do Morgan.

De lá arranquei direto para um compromisso profissional em Cascais, rasgando a A5 com muito mais segurança do que podia imaginar, cada vez menos receio e um entusiasmo crescente. É uma verdadeira viagem, na estrada e no tempo. Uma homenagem ao design dos anos 30/40 e a uma era em que os homens eram homens e não tinham medo de capotar nesta casquinha de noz transmutada em “Hot Rod” de peito feito e roda traseira deslizante, prima direita da adrenalina, no roça-roça com o perigo, a piscar o olho cúmplice em cada curva. Esqueci-me das luvas, e agora tenho frieiras enquanto durar o Inverno – mas a experiência valeu cada pingo suicida deste nariz.

De repente, e ao longo dos dias em que usufruí do privilégio, qualquer desculpa era boa para saltar adentro do Morgan:

- vou só ali ao café;

- vou só ali ao Lidl;

- vou só ali ver o mar;

- vou só ali passear o cão;

- vou só ali voltar atrás porque o cão saltou fora;

- vou só ali conduzir sem destino, fumar um cigarro, e apagá-lo no chão (a altura rasante do veículo assim o permite).

O que recordarei sempre, todavia, é a incrível reação que o Morgan provoca em – literalmente – toda a gente. Tão diferente do habitual na minha magnífica experiência de anos a conduzir maravilhas tecnológicas por obra e graça desta colaboração com o Autohoje. Exemplo: se uma pessoa andar por aí de Porsche, bom, recebe constantes olhares feitos punhais, esgares de desafio e ameaças veladas. Já o Morgan provoca um verdadeiro restauro de fé na humanidade, após tantos polegares em riste, bocas abertas, comentários amáveis, pequenas multidões à caça duma fotografia.

Ah, e uma decisão para o futuro, pessoal, está definitivamente tomada, cortesia da cara-metade: se casarmos, ESTE é o carro!

Luís Filipe Borges

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