“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Caro Borges,

Ahahahah, eu não te disse Borges? Que o meu era melhor do que o teu? Maior não é... têm o mesmo tamanho, mas o meu chama mais a atenção! As gajas ficam doidas quando o vêem! E agora as pessoas pensam que estamos a falar de carros, mas dando a entender que falamos sobre pénis quando na realidade estamos mesmo a falar de pénis... mas se calhar até podemos falar de carros.

Até porque o Mustang com que andaste era a sua versão cabrio de, “apenas”, 44 mil euros. Eu fiquei com o potente V8, com mais de 400 cv e que no mercado português está à venda por 94 mil euros. Sabes quanto custa nos Estados Unidos? Vinte e três mil euros! Não hão-de os norte-americanos achar que é o melhor país do mundo! Pela primeira vez em 50 anos, o Mustang pode ser comprado na Europa e com caixa manual! Carro que é carro é para o condutor passar o tempo todo agarrado à manete! Mesmo que assim não fosse, o impacto visual do bólide é imediato!

Ao volante de um carro como o Mustang vives situações curiosas que, provavelmente, nunca mais irás sentir. Não houve um único carro que se colocasse à frente do Mustang ou fizesse sinais de luzes para sair do seu caminho. E faz todo o sentido! Isso era como ir agora para uma fila e à minha frente estar o Mike Tyson e eu dizer “puto, sai daí”. É ficar à espera de levar nas trombas.

Não sei se é coisa de pobre, que não tem dinheiro para gastar num carro destes, ou se é obra dos próprios veículos. Mas conduzir carros de grande potência é quase como entrar no mundo de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. É encontrar o nosso gémeo mau! Ou, pelo menos, o gémeo que gosta das coisas boas da vida. Podemos ser a pessoa mais correcta do mundo, que ao entrar num Mustang, a manete, o volante, a posição de condução... transformam quem lá se senta. E, a partir daí, só dá vontade de acelerar e ouvir o roncar do motor.

O Papa Francisco? Ícone da liberdade e da tolerância. Senta-se ao volante do Mustang e era capaz de levar uma freira à frente e atravessar a Capela Sistina em hora de missa, parar o carro no altar, sair e dizer: “Tomai todos e bebei! Este é o Mustang que gasta 17 litros aos 100”. Moisés, por exemplo, demorou 40 anos a atravessar o deserto porque não tinha um Mustang! E faria muito mais sucesso. Amén.

António RAMINHOS

 

O primeiro parágrafo é sobre pénis. Até que enfim este tema é abordado numa revista dedicada a automóveis. Fazendo uma analogia, o meu é tipo Mini. Redondo, gordinho e enganador. “Eh lá, isto afinal é maior do que parecia”. Pelo menos foi o que disse a Gina de Alcântara, e a Gina de Alcântara percebe de carros. Hã, de pénis. Perdão, de pénis dentro de carros. De carros com pénis. De pénis com rodin… acho que ainda ‘tou a dever 15 paus à Gin…adiante.

Efectivamente calhou-me o cabrio, preto luzidio como o cavalo homónimo, a menos de metade do preço do teu, e mesmo assim muito mais caro do que nos EUA. Mas pronto, eles lá têm de levar com o Trump, o Bieber, a Lady Gaga. Parece-me relativamente justo que lhes facilitem a vida noutras áreas.  Ah, poder ser cidadão lusitano, e ter antes o Portas, o Badocha, a Lady Betty...

(neste ponto da crónica, a minha cadela mordeu-me na região dos países baixos e acordei).

Um carro como o Mustang realiza uma fantasia de criança. Aquela fase da vida em tivemos brinquedos da Matchbox e, lá está, o mítico modelo da Ford era o que mais provocava sonhos acordados. Primus inter pares. “Um dia hei-de ter um destes”. Todos pensámos isto. Todos, menos o Jójó Bufas. Um colega meu da 4ª classe que, devido ao hábito que lhe deu o apelido, tem um Mustang desde a escola primária. Dentro de si. Lá colocado durante uma refrega no recreio pelo Big Matias. Que era três vezes repetente, espadaúdo, e de olfacto sensível.

Esta nossa parelha foi como um amor de Verão. Intensa, encantada, curta. Mas chega de falar de nós os dois. O privilégio de conduzirmos, ao mesmo tempo, os primeiros modelos Mustang em Portugal, apesar de rápido, valeu a pena. Antes um Mustang durante 4 dias do que um Daewoo a vida inteira. Como me apaixonei por, literalmente, tudo (design, conforto, consumo, performance), destaco um pormenor: abrir o carro ao início da noite e ver o assombroso cavalo projectado no chão, ao lado das portas da frente, como se estivesse prestes a tornar-se alado e fizesse questão de deixar uma impressão digital antes de partir rumo às estrelas. Nota: a minha cadela está a rosnar ameaçadoramente. Se insisto na onda poética perco as já parcas hipóteses de vir a ser pai.

Termino com o que me disse a cara-metade, no momento em que peguei na chave pela última vez, no fito de devolver o augusto veículo à procedência. Uma frase que diz tudo sobre o poder desta obra-de-arte automóvel: “Ainda bem que vais entregar o Mustang. Adorei o carro mas não te quero por aí a circular nele”.

Luís Filipe BORGES

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