“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Luís,

Há coisas que não fazem sentido! Desculpa começar assim já de forma tão bruta. Eu não sei quando é que tu tiraste a carta de condução, eu tirei no ano dois mil. E essa é a primeira! Eu não tiro a carta, quem me tira é a polícia ou a minha mulher quando não quer que eu saia à noite. Eu, quanto muito, celebrei a carta de condução. Sim, porque é uma celebração. Uma independência que te leva a pensar: “Finalmente! Acabou o autocarro e o metro! E as boleias!” Até ao momento em que te lembras que... não tens carro. Podes sempre fazer como um rapaz do meu bairro, que andava na estrada com ramos de árvores a fingir que eram viaturas de quatro rodas. O mais triste? É que uma vez me deu boleia porque eu não tinha carro. E lá fui eu sentado no tronco enquanto ele empurrava.

Nesse período, tens um pai que tem carro e já sabes o que isso implica. Cada vez que pegava no carro era o meu pai na rua a ver as manobras que eu fazia, até sair do campo visual. Mal desaparecia da sua vista, ligava para o meu telemóvel, eu atendia e ele dizia: “Estás a conduzir! Quem te manda atender o telemóvel?” E lá tinha de andar um mês de transportes públicos.

Mas, no nosso tempo, tu “tiravas” a carta de condução em carros... que tinhas mesmo de conduzir! E sentir a direção pesada! E que iam abaixo! E que cheiravam mal! Qualquer dia começam a tirar a carta no Mercedes GLE 350 d 4MATIC Coupé que experimentei esta semana. Um luxo! Chiça, mais luxuoso e confortável que muitas casas! Ainda sonho com ele.

Hoje, os miúdos têm as lições de condução em carros que, provavelmente, nunca mais irão conduzir na vida. Imagina as aulas num topo de gama, chega a casa... o pai comprou um Fiat Uno de 94. Sem desprimor pelo Uno. Tive um... que conseguia abrir a porta com o polegar quando deixava crescer mais as unhas!

Aliás, as aulas deviam ser consoante o estatuto social. Um aluno filho de ministros ou do Cristiano Ronaldo: aulas num Mercedes GLE. Eu, nascido e criado nos Olivais e Chelas: Opel Corsa de 95... e faria parte da aula ter de chupar gasolina de outro carro porque aquele estava na reserva.

António RAMINHOS

Antes de mais, completamente de acordo contigo em relação ao contexto “coisas que não fazem sentido”. A carta de condução devia ser celebrada, sim. Apesar da ironia de poder ser perdida na noite do dia em que a “tirámos”, precisamente por excesso de… celebração. 2.3 – já agora, para ser rigoroso quanto ao nível de festejos. Nota: lá na ilha Terceira há um tipo que já foi apanhado tantas vezes com álcool no sangue que chegámos à seguinte conclusão: o tipo não é bêbado. É um alambique.

A tua carta fez-me recordar, com nostalgia (e dois ou três cortes inadvertidos da lâmina de barbear nos meus pulsos), do primeiro carro dos meus pais. Um Clio 1.0 verde azeitona. Ora os meus progenitores são do género Família Prudêncio, mais vale prevenir do que remediar, o respeitinho é muito bonito, “save it for a rainy day”, não se brinca com Deus e a tropa. Maneiras que o meu pai, cujas dioptrias apenas o autorizam a conduzir carrinhos de supermercado, decidiu atempadamente avaliar o mercado, estudar preços, e adquirir o humilde utilitário logo após a minha mãe ter passado o exame de código com distinção e louvor. Só não contou com o pequeno pormenor dela ter precisado duns 7 exames e cerca de 2000 cabelos brancos para conseguir positiva no exame de estrada. Maneiras que o Clio novinho em folha, com cheiro a bebé a caminho do baptizado, passou uns meses valentes a vegetar na garagem – admirado por mim e pelo meu irmão, adolescentes com acne e feições coradas, como se fosse a oitava maravilha do mundo, um feito tecnológico ao nível do telescópio Hubble, o DeLorean do “Regresso ao Futuro”. Passávamos horas sentados em todas as posições possíveis daquele carrito imóvel imaginando viagens pelo tempo e pelo espaço (pese embora a estrada mais comprida da ilha tenha 20 km, sempre a direito, e a maior emoção imaginável consista na possibilidade de chocar de frente com uma manada de novilhos). Com o Lexus IS que o Autohoje depositou gentilmente ao meu cuidado, regressei ao passado, qual McFly. Robusto, feito para devorar auto-estradas, encantador de americanos com papel e sentido de risco, o Lexus devolveu-me a esse estado juvenil de encantamento – quando esperamos tudo da vida, os nossos pais são super-heróis, e um simples carro pode ser todo um sonho sublime à beira da concretização.

Este final é lamechas? É sim senhor. Quero ver se convenço a Lexus a emprestar-me o bicho outra vez. Tentar faz sempre sentido.

Luís Filipe BORGES

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